Notas sobre o Doutor Fausto de Thomas Mann

Doutor Fausto de Thomas Mann foi relançado pela Companhia das Letras, em tradução de Herbert Caro. A novidade faz parte do projeto da editora, coordenado por Marcus Mazzari, de republicação de obras do autor. Propósito importante e admirável, que faz jus a um dos maiores criadores de monumentos literários da literatura universal, como Buddenbrooks, A Montanha Mágica, José e seus irmãos e Doutor Fausto, sem mencionar suas primorosas novelas. Mann é inventor de obras enciclopédicas, que não se limitam a contar histórias. Discutem questões filosóficas, estéticas, sociopolíticas, científicas, etc. Em A Montanha Mágica, por exemplo, há notáveis aulas de biologia, sem contar, ainda, com as incursões pela física de Einstein. O ritmo de sua narrativa é lento, para dar tempo ao prazer da reflexão, como se o interesse pelo conhecimento fosse a forma mais profunda de amor. Esse tipo de romancista, pelo menos até o momento, é espécime raro, senão inexistente, no século XXI.

O romance Doutor Fausto pertence ao grupo de suas obras de vasta abrangência. Inúmeros temas estão presentes, notadamente, o pacto fáustico, a Alemanha do Terceiro Reich, a filosofia de Nietzsche e a teoria da música dodecafônica de Schönberg. Esse emaranhado de abordagens destaca-se no protagonista Adrian Leverkühn, compositor ambicioso e solitário, construído a partir de um elaborado mosaico intelectual entre Nietzsche – sifilítico como ele –, Tchaikovsky, Adorno, o Doutor Fausto da lendária tradição, com sua eclosão destruidora e diabólica, e demais elementos que a imaginação de Mann incluiu nessa personagem singular, amalgamada num substrato irracional. Direta ou indiretamente, a obra está repleta também de outras referências literárias e artísticas. Entre elas, Shakespeare, Klopstock, Keats, Goethe, Beethoven, Wagner e Strauss, nesse romance que é também um Künstlerroman (romance do artista).

A arte e, apenas ela, Imitatio Dei, teria a capacidade de desvelar a aparência do ser. Isso ajuda a explicar o pacto de Leverkühn (“vida audaciosa”), vinte e quatro anos sem amar, em troca da produção de uma obra-prima musical, seu oratório apocalíptico, que é, ao mesmo tempo, um paralelo ao pacto demoníaco da Alemanha nazista fundado no ódio. Apenas a música poderia personificar o destino alemão, porque ela é, como afirma Kierkegaard, “o demoníaco”. Daí se entende o narrador Serenus Zeitblom, amigo do compositor, pedir no epílogo que “Deus tenha piedade de sua pobre alma, meu amigo, minha pátria”.[i] Não é também gratuita a ironia do demônio ao dizer, “é verdadeiramente minha língua favorita. Em geral, compreendo apenas alemão”.[ii] O pacto é uma espécie de “fuga das dificuldades da crise da cultura”,[iii] como escreveu o próprio Mann. Leverkühn traz em si o sofrimento de sua época. Sua infecção venérea é também metafísica. Ele está doente. E a sociedade, enferma. Sua experiência pessoal é coletiva. Satã, figura do mal por excelência, já anunciada na epígrafe retirada do Inferno de Dante, está por toda parte, na vida do artista e no mundo que presencia o avanço das barbáries nazistas. O demônio está na rua, no meio do redemoinho.

Nesse Teufelsbuch (livro do diabo), nessa história repleta de teologia sem religião, ainda que tenha como referência constante o luteranismo e o teólogo Paul Tillich, bem e mal é o assunto subsistente. Isso talvez dê à obra seu caráter universal e explique a fascinação que ela exerce ininterruptamente nos leitores, geração após geração.

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NOTAS

[i] Gott sei euerer armen Seele gnädig, mein Freund, mein Vaterland.

[ii] Ist gerad recht meine Lieblingssprache. Manchmal versteh ich überhaupt nur deutsch.

[iii] die Flucht aus den Schwierigkeiten der Kulturkrise in den Teufelspakt.

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Doutor Fausto

Thomas Mann

Companhia das Letras

Tradução: Herbert Caro

624 páginas

R$79,90

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Flavio Quintale foi finalista do Premio SESC de literatura 2015 na categoria romance. Tem livros de ficção publicados em Portugal e de ensaios na Alemanha. Professor universitário, lecionou no Brasil, na França e na Alemanha. É bacharel em jornalismo pela PUC-SP e mestre e doutor em Letras pela USP e pela Universidade de Konstanz, Alemanha.

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