Cinco perguntas para João Cezar de Castro Rocha


Entrevista com o crítico literário João Cezar de Castro Rocha, que acaba de lançar Culturas Shakespearianas – Teoria mimética e os desafios da mímesis em circunstâncias não hegemônicas (É Realizações). Entrevistador: Tiago Ferro.

PEIXE-ELÉTRICO: Você vai ao centro do cânone para quebrá-lo por dentro ao propor que a forma da obra shakespeariana contém os procedimentos típicos de culturas não hegemônicas, estabelecendo a partir daí uma espécie de caminho a ser seguido por artistas e intelectuais que atuam fora dos centros onde a cultura hegemônica é produzida. Como tem sido a recepção desse hipótese no Brasil e na América Latina e o que você espera com a versão em inglês do livro?

JOÃO CEZAR: O caminho deste novo livro foi longo e, em alguma medida, tortuoso. Ele principiou a ser concebido numa Cátedra Honorária no México, a Cátedra Francisco Eusebio Kino, na qual ofereci um curso de pós-graduação. Por isso, escrevi a primeira versão do presente livro em espanhol, e o livro foi lançado no México em 2014 com o título ¿Culturas Shakespearianas? Teoría Mimética e América Latina. No lançamento, em outubro de 2014, organizou-se um colóquio na Universidad Iberoamericana para discutir as hipóteses propostas no ensaio, com ênfase para os conceitos de culturas shakespearianas e interdividualidade coletiva. Um livro com os trabalhos apresentados no colóquio já foi publicado em português e em espanhol. Portanto, a recepção inicial na América Hispânica foi muito estimulante; na verdade, uma surpresa grande e feliz. Especialmente o conceito de interdividualidade coletiva e minha hipótese sobre a violência na América Latina têm sido discutidos em âmbitos os mais variados e com resultados muito interessantes.

No Brasil, por enquanto, o livro tem tido uma boa repercussão na imprensa. Ele foi lançado em agosto; por isso, é preciso esperar um pouco para saber como o quadro teórico que desenvolvo será apreciado. Claro, também aprofundo a noção de poética da emulação, apresentada em livro anterior, Machado de Assis: por uma poética da emulação; uma hipótese cuja discussão tem sido razoável.

Uma palavra necessária sobre o livro agora saído. Trata-se de um livro novo! Explico: reescrevi literalmente frase a frase no esforço de tradução, e, desse modo, radicalizei ao máximo a dicção ensaístisca do texto, menos presente em espanhol. Ademais, ampliei o livro em mais de 100 páginas, além de ter incorporado ativamente as artes plásticas do período colonial da América Hispânica. Por fim, o argumento teórico relativo à circunstância não hegemônica foi expandido e, espero, aperfeiçoado. Daí, o novo título.

A tradução para o inglês já está pronta e faço agora a revisão. O livro machadiano saiu em inglês em 2015 e a recepção tem sido boa, dentro dos limites estreitos, para o público de língua inglesa, para um ensaio que trata detalhadamente da obra de autor brasileiro. Creio que, nesse sentido, Culturas Shakespearianas deve ter um apelo maior. Confesso que estou curioso, pois, como você observou, arrisco análises muito pouco ortodoxas de nomes consagrados: William Shakespeare, Jane Austen, Gustave Flaubert, Joseph Conrad, entre outros. Sobretudo a leitura que proponho do método compositivo shakespeariano, com sua afinidade estrutural com os dilemas não hegemônicos, talvez, imagino, provoque reações fortes.

Vamos ver! A tarefa da vida intelectual não pode ser outra: incomodar. No Brasil, infelizmente, nem sempre é o caso: o compadrio acadêmico e o desejo nada obscuro de ser cooptado pelos dois ou três circuitos afluentes da vida cultural têm o efeito nocivo de produzir uma curiosa docilidade nas gerações mais jovens. Os que ficam à margem desse toma-lá-dá-cá constrangedor geralmente são deixados de lado: claro, são uns selvagens grosseirões, não é mesmo?

PEIXE-ELÉTRICO: A forma do seu livro segue o caminho teórico e político proposto no conteúdo da obra, algo bastante raro em textos desse tipo, principalmente levando-se em conta que estão em jogo: anacronismos, uso desabusado da teoria, estranhamento de autores canônicos. Assim, a leitura do livro nos convence nessa dobra formal pouco usual e reforça a operação do estranhamento, mas também sugere indiretamente que a busca da sociedade na forma literária seja possível também de ser alcançada em obras de crítica literária e não apenas na literatura. É possível então operar essa passagem da teoria para objeto não apenas circunscrito ao debate teórico em si mas como objeto para o próprio entendimento da sociedade por meio de suas características formais?

JOÃO CEZAR: Essa foi e continua sendo a minha esperança – espero tê-la realizado, ainda que parcialmente. Daí também a forma radicalmente ensaística do texto. Este é o livro no qual mais arrisquei com a experimentação da escrita.

Em primeiro lugar, a forma do ensaio foi pensada como uma oscilação constante entre a discussão da teoria mimética, do pensamento de René Girard, e o estudo das condições estruturais da circunstância não hegemônica.

Tal oscilação, em segundo lugar, pretendia dar corpo ao projeto de pensar mimeticamente certos aspectos das culturas latino-americanas, mas também de oferecer uma contribuição teórica não hegemônica ao pensamento girardiano. Forma da oscilação que, se acertei na mão, põe a nu a vulnerabilidade da circunstância não hegemônica num mundo sempre mais globalizado e sempre mais, mas muito mais, assimétrico. Vulnerabilidade também existencial que se tornou mais clara para mim mesmo na leitura que apresento de Otelo.

É claro que tal esforço somente faz sentido se atribuirmos à escrita crítica potência criativa – e, óbvio, se considerarmos a força crítica subjacente à criação. Não se trata de borrar fronteiras e produzir a geleia geral no plano do ensaio, mas de desnaturalizar todas as instâncias da reflexão teórica e da prática artística, inaugurando uma porosidade que se deseja particularmente produtiva, quando a tarefa for bem-sucedida.

Não se esqueça, contudo, que se trata de uma tarefa.

Tarefa na acepção da tarefa do tradutor de Walter Benjamin. Ora, quem diz Aufgabe também sugere aufgeben, isto é, abandono, renúncia, numa palavra: fracasso.

Como sempre, a leitora decidirá do acerto ou do tropeço do meu esforço.

PEIXE-ELÉTRICO: Se para Girard a violência nasce no mesmo instante que o desejo, e não “logo em seguida”, como quer a psicanálise, estaríamos definitivamente condenados a ter que lidar com ela. Isso iria de encontro ao seu projeto de evitar categorias essencialistas. Como no seu livro você lida com esse impasse e ultrapassa, se é que o faz, a teoria da qual parte?

JOÃO CEZAR: Eis uma dessas perguntas que levam longe, como se diz no final de certo romance.

A violência na teoria mimética não nasce exatamente no instante em que, adotando um outro como modelo, passo a desejar o mesmo objeto que ele. Nesse momento, a mímesis ainda permanece fundamentalmente gregária. Agora, uma vez que adotei um modelo, com ele muito provavelmente virei a disputar o objeto que aprendi com ele a desejar, logo, a violência desde sempre se encontra potencialmente presente na gênese do desejo – como se percebe a redundância é indissociável da exposição da teoria mimética. No entanto, como, para René Girard, o desejo mimético é o núcleo definidor da condição humana, a violência não pode ser driblada: ela estará sempre, por assim dizer, na marca do pênalti. Na maior parte das vezes, ela vence o jogo por goleada; até mesmo porque o goleiro costuma ser o bode expiatório ideal.

Enfrentemos a segunda parte de sua pergunta: o essencialismo. O problema com as categorias essencialistas é que, em geral, elas implicam um conteúdo determinado a priori. Nesse caso, como privilegiar as transformações próprias dos processos históricos? Ora, como não favorecê-las se nos encontramos numa circunstância não hegemônica no âmbito de relações globais sempre mais assimétricas?

No entanto, devolvo a pergunta: qual o problema de supor formas potencialmente universais, cujo conteúdo seja histórico, portanto, determinado a posteriori. Explico melhor minha posição: pensemos no ato narrativo como universal, pois nunca se encontrou um grupo humano que não lance mão da narrativa como forma de autoconhecimento e mesmo de estigmatização do outro; não importa a direção do ato, aqui o que conta é compreender a narativização de si, dos outros e do mundo como uma categoria universal. Não precisamos definir um conteúdo determinado e inamovível para o ato de narrar, ele se transforma e assume formas particulares e diversas, mas o ato mesmo possui potência universalizante.

Já que mencionei a narrativa, aproveito para levantar a bola – talvez você ou algum leitor queiram cortá-la. Há em certa crítica literária e cultural brasileira uma autêntica histeria contra a narrativa, que não deixa de ser divertida, pois, nesse caso, trata-se de um sintoma da naturalização dos próprios pressupostos.

Vejamos, como exemplo, a questão da história literária. Ora, vários esforços diligentes buscaram redigir histórias literárias não narrativas – penso, claro, nos volumes publicados pela Harvard University Press, nos quais uma miríade de verbetes pretende combater bravamente a tradicional e, quem duvidaria?, pouco sofisticada narrativa da literatura nacional. E, no entanto, a multidão de entradas se vê enfeixada em capas com títulos reveladores: A New History of French Literature; A New History of German Literature!

Proponho um passo atrás.

Não vejo problema algum numa história literária que se assuma sem pudores como sendo narrativa. E vou além (veja como sou mesmo um caso perdido!): essa narrativa pode muito bem ser teleológica, isto é, pode ter como base a apresentação cronológica de um processo identificado numa determinada comunidade simbólica. O problema surge se a narrativa for teleológica a priori, pois, nesse caso, todas as inevitáveis exclusões – sim!, inevitáveis, pois sem seleção, logo, exclusões, não se pode nem mesmo decidir em qual boteco pedir uma cerveja – serão naturalizadas e não problematizadas. Ou seja, uma narrativa pode abraçar uma teleologia a posteriori, como efeito de um largo estudo, por meio da apresentação do que o intérprete julga ter sido o(s) veio(s) dominante(s) em determinada experiência literária e cultural. Mas como se trata de uma teleologia a posteriori sua escrita somente será fecunda se as exclusões forem assumidas e tematizadas.

Meu entendimento da teoria mimética girardiana caminha nessa trilha. O caráter mimético do desejo é uma forma-matriz que tanto funda a sociedade como ameaça dissolvê-la em meio a crises de rivalidade provocadas pela violência que se encontra em potência no próprio desejo mimético. Não considero o pensamento girardiano essencialista, mas dinâmico. Como se trata de uma leitura muito particular, dediquei três dos seis capítulos do livro a uma discussão minuciosa da teoria mimética.

Para concluir: há impasses que não pedem ultrapassagem, mas radicalização de suas premissas; em alguma medida, procurei aprimorar essa possibilidade no ensaio. Resolver problemas – todos eles – me parece constituir a imagem acabada do tédio.

PEIXE-ELÉTRICO: A busca de soluções para enfrentar a ultraviolência latino-americana sugerida no final do livro buscando na antropofagia oswaldiana um caminho possível me parece encontrar limites claros no próprio movimento atual do capital financeiro globalizado que não apenas cresce apesar da barbárie gerada, mas até mesmo por causa dela. Salvo engano é todo o projeto de modernidade que sobrevive aos trancos e barrancos apenas em sua deturpação fetichista que transforma progresso em moda e a busca de consenso de ideias em manifestos publicitários. Nesse quadro desolador, não seria um ato com alguma carga de ingenuidade (ou de desespero) buscar na própria arte moderna uma solução para a face mais escandalosa desse início de século (e fim de modernidade): a violência?

JOÃO CEZAR: Opa! Vamos lá: pergunta muito oportuna porque me permite desfazer um mal-entendido: embora reconheça toda sua potência, eu me distancio claramente do modelo oswaldiano de antropofagia! Reformulo o que digo: era meu propósito explicitar esse distanciamento, mas sua pergunta revela que não fui tão claro quanto imaginei.

Então, me permita ir passo a passo e sobretudo despacito.

Em primeiro lugar, anoto a afinidade que havia passado despercebida entre sujeito mimético e sujeito antropofágico: ambos concedem centralidade ao outro na determinação de suas identidades. René Girard cunhou a expressão mal ontologique para se referir à falta radical de ser do sujeito mimético. O único neologismo proposto pelo pensador aprofundou a ideia: em lugar de individualidade, Girard propôs a noção de interdividualidade, precisamente para enfatizar a dependência do eu em relação aos outros, expressa no prefixo inter.

Dependência que nunca se resolve, ressalte-se.

Ainda bem – acrescente-se.

Contudo, e eis o segundo passo, tal potência foi domesticada na maior parte das interpretações da antropofagia de Oswald de Andrade. Ora, nada mais paradoxal do que afirmar que a cultura brasileira é antropofágica! A antropofagia não se dá bem com o verbo ser, somente com o verbo estar ela vive seu dinamismo próprio. Apresentar o brasileiro como antropófago certamente assegura o êxito de macumba para turista, e compreende-se que muitos artistas resistam mal à tentação, buscando um nicho num competitivo cenário globalizado – o mercado è mobile, como se sabe. Somente uma antropofagia anoréxica se deixa adjetivar. O antropófago deve antes comportar-se como um Pantagruel sem remorsos. Um antropófago brasileiro deve ser um concorrente forte a mais uma, e ainda outra, edição do Masterchef, mas como potência de pensamento a determinação nacional tem o efeito de faca cega: já não corta carne alguma.

Tal desalinho se encontra no “Manifesto Antropófago”; recordemos dois de seus aforismos – e sobretudo assinalemos a contradição lógica que os anima:

Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.

(...)

Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade.

Das duas uma: ou se valoriza a intuição antropológica – “lei do homem”, não lei do brasileiro! – ou se privilegia a vocação histórica – “o Brasil tinha descoberto a felicidade”. Flertar com as duas possibilidades ao mesmo tempo, significa comer o bolo todo no café da manhã – antropófagos têm um apetite insaciável – e ainda assim guardar uma fatia gorda para o lanche da tarde. Em A Crise da Filosofia Messiânica a contradição explode nas páginas finais, quando Oswald concluiu seu complexo argumento com uma tirada enigmática: “Mas, sem dúvida, é na América que está criado o clima do mundo lúdico e o clima do mundo técnico aberto para o futuro. [...] Trata-se de procurar soluções paralelas ao primitivismo como n’A Revolução dos Gerentes, de James Burnham”. Acredite se quiser, Oswald considerou a distopia corporativa de Burnham, exposta em Managerial Revolution, publicado em 1941, um modelo autenticamente antropofágico... Creio que sou o primeiro a tocar o dedo nessa ferida.

No livro, tentei expressar esse desacordo recorrendo à reflexão de Michel Melamed e Evando Nascimento como alternativas por dentro da antropofagia, isto é, sem negar sua potência, mas sublinhando suas contradições internas, assim como a domesticação que lhe foi imposta tanto pela crítica cultural quanto pela prática artística.

O oportunismo também é voraz.

Sabe duma coisa? Você me convenceu: vou escrever um pequeno livro sobre o tema. Espero que a decisão não soe como uma ameaça.

Falemos da violência: eu não apresento exatamente uma alternativa que se deseje profilática. Aqui, o modelo girardiano é muito importante para mim: reconhecer a violência como pulsão mimética implica sabê-la nossa e não apenas identificá-la no outro. Vale dizer, imaginar um mundo no qual a violência é mantida sob controle cuidadoso é o máximo que devemos postular; a crença num mundo perfeitamente não violento costuma resultar em arbitrariedades e autoritarismos de uma violência inaudita, pela simples eliminação de quem discordar da imagem edulcorada. Por isso, o que pretendi foi oferecer uma reflexão sobre os traços da violência nua e crua das sociedades latino-americanas. Propus que nos formamos com base numa oscilação perversa: veneração do “Outro” estrangeiro, desprezo vitimário pelo “outro outro” nacional. Se não me equivoco muito, esse é o dilema que ainda hoje não soubemos enfrentar, talvez pela falta de um quadro teórico e conceitual. Sem megalomania alguma, e muito ciente de meus limites, eis o que busquei realizar neste ensaio.

PEIXE-ELÉTRICO: Não é possível falar em crítica cultural hoje no Brasil sem citar o absurdo caso UERJ. A sua luta tem sido a de trazer a sociedade para dentro da universidade em vez da estratégia mais comum da greve. Isso acaba acontecendo por causa de uma situação extrema e nos faz pensar se não deveria ser a essência da universidade pública em todos os tempos e locais. O que podemos pensar do futuro da universidade pública nesse momento dramático em que mais uma vez o capital internacional se associa com o que há de mais atrasado e corrupto no Brasil?

JOÃO CEZAR: Pois é! A pergunta que vale um milhão de dólares – pois é deles que falamos, não?

Vamos nos arriscar a pegar o touro pelos chifres?

O que está acontecendo com a UERJ ocorre todos os dias com a maior parte da sociedade brasileira. Isto é, a parte que mora em periferias e subúrbios e passa não menos do que 3, 4 horas em transportes públicos indecorosos, espremidos todos na ida e amassadas todas na volta. Tratados todos e todas com desprezo vitimário por uma elite inculta e incapaz de entender que, em lugar do País-Brasil, no qual afirmam orgulhosos sua diferença em condomínios fechados e carros blindados, há uma Nação-Brasil que nunca se formou, e em boa medida por sua ação e omissão.

Pois é disso que se trata: o País-Brasil é muito, mas muito bem-sucedido e, em aproximadamente um século, transformou uma economia agrária e fundamentalmente monocultora numa das 10 maiores potências industriais do planeta. Não é pouca coisa! O País-Brasil hospeda uma das cidades mais dinâmicas e ricas do mundo: São Paulo. Em alguns aspectos, possui números que rivalizam com as economias mais desenvolvidas.

Já a Nação-Brasil... No verso-navalha de Carlos Drummond de Andrade: “E acaso existirão os brasileiros?”. Claro que não! Para isso seria necessário um autêntico projeto nacional, que não se limitasse à disputa do poder executivo – vale dizer, do botim do estado – ou da manutenção dos inaceitáveis privilégios de nossas elites – desde a bolsa empresário, até os puxadinhos jurídicos do judiciário para inflar os próprios salários, passando pelo perdão de dívidas bilionárias, etc. etc. etc. E nem mencionei as benesses verdadeiramente obscenas do legislativo, que, salvo engano, nenhum partido recusa.

Isto é, o pensamento social brasileiro involuntariamente colaborou para criar uma miragem: o Brasil... O Brasil e seu retrato, suas raízes, seus problemas e, sobretudo, suas inúmeras formações que teimam em não chegar a termo. Não terá chegado a hora de um ensaísmo que saiba romper com o hábito bem pensante e proponha sem diplomacia alguma a cisão entre o País-Brasil, exitoso e quatrocentão, e a Nação-Brasil, que nunca foi sem nunca ter sido? As crises da política brasileira desde a década de 1950 não podem ser vistas, ao menos parcialmente, como instantes de fricção entre o País-Brasil, incapaz de abrir mão de qualquer privilégio, até mesmo os mais mofinos e vergonhosos, e a Nação-Brasil, quando muito timidamente ela ameaçou articular-se?

Ora, não vamos parar aqui, não é mesmo? Vamos radicalizar ainda mais a perspectiva?

A maior parte dos professores universitários, artistas, criadores, escritores são cidadãos do País-Brasil. Não duvido que sonhem com a Nação-Brasil e inclusive se sintam comprometidos com os tantos não-brasileiros, com os quais esbarram todo o tempo – Florestans Fernandes em potência, mas que não têm como se desenvolver.

A história da UERJ é a promessa de uma Nação-Brasil. Ora, a UERJ principiou como escolão de terceiro grau – assim era conhecida. Nas últimas décadas reinventou-se e hoje é um dos mais destacados centros universitários da América Latina.

Onde está a solidariedade efetiva da elite universitária brasileira com a UERJ? Onde se encontra o empenho concreto de nossos artistas com o destino da UERJ? A UERJ é invisível como o povo que vive às margens do País-Brasil.

A UERJ é a promessa da Nação-Brasil; a UERJ nunca habitou o País-Brasil. Alunos que precisam trabalhar para estudar podem sonhar com uma careira acadêmica na UERJ. Na UERJ, o curso noturno acolhe os trabalhadores. Na UERJ, a política de ação afirmativa foi implementada pela primeira vez.

Será por isso que para a bem-intencionada elite intelectual e universitária brasileira parece aceitável o silêncio sobre o crime cometido pelo governo do PMDB no Rio de Janeiro?

***

Culturas Shakespearianas – Teoria mimética e os desafios da mímesis em circunstâncias não hegemônicas

João Cezar de Castro Rocha

É Realizações

424 páginas

2017

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